Meu primeiríssimo entardecer em Florença me trouxe lágrimas. Não de emoção, e sim de tristeza. Para uma menina de 26 anos, cheia de energia, que havia morado em São Paulo e Nova York, as luzes amarelas dos lampiões da cidade medieval entravam em enorme contraste com o azul das metrópoles. Não via esperança nem o amor pelo homem que me trouxe à Itália. Naquele momento nada disso bastava. Mas havia decidido viver na Itália. Casei, tive dois filhos e fui me adaptando, mas não muito. Não estava feliz. As crianças pequenas eram lindas, mas eu não me via como mãe de bebês. Gosto muito mais da adolescência em diante, quando podemos discutir e dividir opiniões. O peso da infelicidade distanciou o casal e veio o divórcio.

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Nos anos 90 a internet ainda não tinha se popularizado. Portanto, viver em Florença significava só essa tristeza. Com a separação tive que me reinventar: mudei um pouco a casa, as crianças cresceram, comecei a trabalhar e a internet chegou. Viajei muito e as luzes já não pareciam tão amarelas. Mais 10 anos se passaram, virei blogueira, os filhos viraram adultos e conheci um homem que me entende, respeita e admira. 

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Agora me concentro em ver o belo em tudo, em sorrir, em socializar, em aprender com os outros. Sinto que é uma responsabilidade perante à sorte – ou “fortuna” como dizem os italianos. Palavra que deixa muito menos ao acaso. A Itália tem isso no seu “ser” mais profundo – que também está no DNA da Bontempo. Mais vivo aqui, mais tenho certeza de que a essência italiana é o hedonismo – doutrina filosófica que enxerga o prazer como bem supremo da vida.

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Luz, arte, vinhos, comida, paixão, arquitetura: tudo por aqui leva ao hedonismo, ao prazer. Luxos simples que se encontram a céu aberto. Quando cheguei na Itália, jovem, com vontade de conquistar o mundo, as coisas pareciam paradas. Mas a maturidade foi um momento de revelação. 

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Dei um passo atrás e reparei que no tempo dessa cultura está o bem viver. Senti isso na pele e aprendi: não são/somos preguiçosos, e sim apreciadores do que há de mais importante na nossa existência: o prazer. Foi então que aqueles lampiões amarelos, para mim, se tornaram lindos, e isso me faz chorar – agora, de emoção, que compartilho com a Bontempo em homenagem às suas origens.

(Fotos: Roberto Leone)